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    Infertilidade secundária – problemas de segunda viagem

    Muitos casais pensam que, se a primeira gravidez foi tranqüila, o mesmo vai acontecer quando estiverem prontos para o bebê número dois. Infelizmente, para milhões de famílias, não é bem assim...

     

    A infertilidade secundária é bem mais comum do que se imagina: cerca de 60% dos casais inférteis já têm um filho e enfrentam problemas para conseguir o segundo bebê.

    Quando Ana e seu marido, Alexandre, tiveram seu primeiro filho, tudo correu tranquilamente: “Ter meu filho Casimiro foi uma brisa. Eu fiquei grávida rapidamente, sem stress, tive poucos enjôos, e me sentia uma super mulher – trabalhando, grávida, montes de energia a despeito dos meus 37 anos”, diz Ana, que agora tem 40.

    No entanto, quando o casal iniciou a empreitada para ter o segundo bebê, começaram a enfrentar um obstáculo atrás do outro. No aniversário do primeiro filho, ela teve um aborto na 10ª semana. Seis meses mais tarde, ela teve outro aborto. Depois disso, não conseguiu mais engravidar. “Foi tão fácil engravidar – e continuar grávida – na primeira vez. Eu não imaginava enfrentar tantas dificuldades na segunda vez. Eu não estava preparada para qualquer problema”, diz Ana.

    Ser incapaz de ter um segundo filho causou a Ana e seu marido um enorme stress. “A pior parte foi ter que aceitar que nossa família teria que ser tão pequena. Eu realmente queria uma segunda criança, assim meu filho não cresceria como filho único e centro de nossas atenções e expectativas”. Ana começou a recriminar-se por esperar tanto tempo para ter uma família. “Eu me condenava por ter colocado tantos ovos na cesta da carreira e este seria o triste preço que eu teria que pagar”.

    Muitos casais, como Ana e Alexandre, acreditam que por terem tido uma gravidez bem sucedida, poderão ter outras iguais, tranquilamente. Infelizmente, para muitos casais esta simplicidade não é verdadeira. As estatísticas americanas demonstram que cerca de três milhões de pessoas nos Estados Unidos experimentam a infertilidade secundária.

    “Por terem concebido uma criança, é natural que os casais tenham por garantido que uma nova gravidez virá facilmente”, diz o Dr. Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana, diretor da Clínica e Centro de Pesquisa que leva o seu nome, em São Paulo. “Não é por que já conseguiram ter um bebê, que o casal pode desconsiderar a infertilidade”.

    Infertilidade secundária é definida como a inabilidade de conceber um bebê ou seguir com a gravidez a termo depois do nascimento de um ou mais bebês. De fato, essa condição é mais comum do que a infertilidade primária.

    Diversas são as causas da infertilidade secundária, e são muito parecidas com as da infertilidade primária, de acordo com o Dr. Roger Abdelmassih. Entre as mulheres, as culpas podem incluir desordens ovulatórias, menopausa precoce, aderências pélvica, inflamação ou infecção, danos ou bloqueios nas tubas uterinas, pólipos e fibroses uterinas e endometriose. Nos homens, as causas principais incluem baixa contagem espermática, motilidade deficiente dos espermatozóides, problemas ejaculatórios, ou pobre qualidade do esperma.

    “A causa, ou causas, da infertilidade secundária pode ser determinada em cerca de dois terços dos casos. Para um terço dos casais a razão para não engravidar, ou não levar a gravidez a termo, é desconhecida”, explica o Dr. Abdelmassih. Estilos de vida podem contribuir para a infertilidade secundária. Fumo, doenças sexualmente transmissíveis e excesso de peso podem dificultar a fertilidade da mulher. A capacidade de ser pai pode estar comprometida por abuso de álcool ou drogas, ou por infecções sexualmente transmitidas.

    Às vezes a diferença está simplesmente na passagem do tempo. Com o envelhecimento, a habilidade de conceber um bebê decresce. A fertilidade feminina começa a declinar a partir da metade da terceira década de vida, quando os ovários liberam menos óvulos e a qualidade deles vai declinando. “Os óvulos envelhecem a cada ano que passa, mais rapidamente do que a mulher. Assim, uma mulher que tenha tido seu primeiro filho por volta dos 34 anos estará muito menos fértil aos 38 ou 39 anos, quando ela se sentir pronta para o bebê número dois”, explica o Dr. Roger Abdelmassih.

    Estudos sugerem que cerca de 30% das mulheres com idade entre 35 e 39 anos e 50% das mulheres nos quarenta anos sofrem algum problema de infertilidade. “Com o envelhecimento, os ovários produzem menos estrógeno, o que leva ao decréscimo do muco cervical. Assim, o espermatozóide pode não ter muita ajuda para nadar através do cervix, após o intercurso sexual”, explica o Dr. Roger. A idade também aumenta a chance da mulher desenvolver endometriose e outras desordens que interferem no sucesso da concepção e da gravidez. O risco de aborto também aumenta com a idade: a taxa de aborto natural está em torno de 10% para mulheres nos seus 20 anos. 20% para mulheres com idade entre 35 e 39 anos, e cerca de 50% para mulheres com idade entre 40 e 44 anos.

    A fertilidade masculina também diminui com a idade. Na medida em que envelhecem, os homens produzem espermatozóides em menor quantidade e com menos motilidade. Homens em idade mais avançada podem ter também problemas para manter a ereção, e tudo isso combinado pode dificultar o alcance dos espermatozóides ao seu destino.

    Assim como a infertilidade primária, a secundária pode levar os casais a enormes problemas emocionais. De fato, pessoas que experimentam a infertilidade secundária reportam sentimentos de stress e ansiedade idênticos àqueles da infertilidade primária. “O casal poderia pensar que seria mais fácil aceitar as dificuldades para engravidar uma vez que têm uma criança, mas não é bem assim. Agora que já sabem a alegria que um filho trás, a vontade de reviver a realização desse sonho é ainda maior – é um desejo totalmente renovado, que se torna único”, explica o Dr. Roger Abdelmassih.

    O stress emocional e a ansiedade que um casal sente lidando com a infertilidade secundária podem ser magnificados pela falta de compreensão da família e de amigos. Este tipo de situação é menos reconhecido e compreendido que a infertilidade primária: para a “platéia” o casal dá a impressão de não querer o segundo filho. Por outro lado, se todos sabem o quanto o casal quer a segunda gravidez e não conseguem realizá-la, vem aquele consolo que acaba sendo detestável: “vocês já têm um filho, com saúde, veja como vocês tem sorte e etc.” Enfim, tanto a família, quanto os amigos e até o médico pode não entender quanto devastadora é a incapacidade de engravidar pela segunda vez.

    Esta falta de compreensão e empatia pode provocar sentimentos de culpa e auto-condenação nos casais que vivem a infertilidade secundária. “Eles sentem culpa por que acreditam que não têm o direito de desejar tão avidamente outro filho”, considera o Dr. Abdelmassih. Mesmo as mulheres inférteis de primeira viagem podem não ser muito simpáticas ao problema: “mulheres com infertilidade secundária são vistas como “foras da lei” no mundo da infertilidade. As pacientes primárias pensam que é egoísmo das pacientes secundárias ficarem aborrecidas por não conseguir ter dois filhos, quando elas já têm um”, diz o Dr. Roger.

    Outra fonte de stress vem do estar cercado por casais que não tiveram problemas para engravidar do segundo, do terceiro ou do quarto filho. “Se o casal sofre de infertilidade primária, ele pode escapar do mundo infantil”, diz o Dr. Roger, “mas quando o casal já tem um filho, ele está mergulhado nesse mundo e não pode deixar de participar de festinhas de aniversário, e outras atividades infantis, onde podem encontrar casais grávidos e cheios de filhos”.

    Casais com infertilidade secundária encaram desafios únicos quando iniciam o tratamento de infertilidade. “Ter crianças pequenas para cuidar certamente afeta a facilidade do casal para fazer sexo. Fazer amor fica parecendo um trabalho quando a gravidez não acontece”, diz Ana. “Acaba perdendo a espontaneidade”. Por outro lado, a menos que o casal tenha uma fantástica babá, ou possa contar com a ajuda de avós, muitas vezes é preciso levar a criança ao consultório médico para as consultas, ultrassons, e outros procedimentos relativos ao tratamento – o que pode ser muito embaraçoso para a paciente, angustiantemente aborrecido para a criança e imensamente irritante para as mulheres que estão na sala de espera e que sofrem de infertilidade primária.

    Felizmente, assim como a infertilidade primária, a secundária pode, na maioria das vezes, ser diagnosticada e tratada. Testes simples podem revelar problemas com hormônios, contagem espermática e bloqueios tubários, entre outras causas. “É crucial ter o diagnóstico apropriado e tratar o problema o mais cedo possível”, diz o Dr. Roger.

    O tratamento varia de acordo com a causa do problema. “A boa notícia é que as taxas de sucesso de gravidez com a infertilidade secundária são maiores do que com a infertilidade secundária”, diz o Dr. Abdelmassih. “Existe uma forte possibilidade de sucesso de gravidez se o casal procurar ajuda médica no tempo adequado, ou seja, assim que notar a dificuldade para engravidar”.

    No entanto, por diversas razões, pessoas com infertilidade secundária são mais resistentes para procurar tratamento em relação aos casais que sofrem de infertilidade primária. Estes casais costumam sentir que estão inférteis por que esperaram demais para ter filho e daí decorrem sentimentos de culpa, e também podem pensar que seria injusto investir dinheiro em um tratamento quando poderia ser aplicado na educação do filho já existente. Finalmente, casais que sofrem a infertilidade secundária podem nem sequer ter conhecimento da gama de tratamentos seguros e eficazes que estão disponíveis.

    Para Ana e seu marido, enfim, houve um final feliz. Levou quase um ano, mas Ana engravidou novamente. Depois de fazer um tratamento à base de hormônios e anti-coagulantes que não foi bem sucedido, seus médicos recomendaram ao casal que se submete a uma fertilização in vitro – que deu certo na primeira tentativa. E a boa notícia veio em dose dupla: Ana está grávida de gêmeos.



    colaboradores: Dr. Roger Abdelmassih e Dr. Vicente Abdelmassih
     
     
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