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    Quando apenas um quer o filho

    Existe uma máxima popular - “quando um não quer, dois não brigam”, que se aplica a muitas situações. Filho, por exemplo, é um projeto a dois, não pode ou não deve ser unilateral. Pelo menos deveria ser assim, mas nem sempre é.

    Já presenciei dramas dignos de novela. Um quer ter o filho e o outro não, mas depois de muita insistência, acaba cedendo e embarca no projeto só para agradar, ou não perder, o parceiro.

    Os personagens mais comuns dessa trama são homens de meia idade que se casam com mulheres mais jovens. Normalmente, ele já tem filhos de uniões anteriores – a maioria já fez vasectomia – e só querem o lado bom da relação. Passear, viajar, namorar, curtir a nova companheira, sem dividi-la com ninguém. Já passaram da fase de agüentar mulher estressada, fraldas, mamadeiras e noites sem dormir. Ela, jovem e apaixonada, está estreando no papel de esposa. Tem os hormônios e o instinto maternal aflorados. É natural que queira um filho.

    Diante desse cenário, mantenho a neutralidade. Quanto sinto muita resistência de uma das partes, converso com o casal e oriento que voltem para casa, reflitam bastante sobre o assunto, para não tomar uma atitude precipitada. Reforço que esse embate pode até refletir na relação. Afinal, ter um filho, a não ser quando se trata de produção independente, exige consenso.

    É nesses momentos que eu reflito sobre as diferenças entre os seres humanos. Homens e mulheres lidam com a falta do filho de modo diferente. As mulheres, mais sensíveis, falam o que sentem, desabafam com as amigas, choram. Já os homens se fecham no seu mundo, não verbalizam ou discutem o problema com a própria companheira, o que dificulta bastante a decisão.

    Enquanto alguns casais fazem do filho seu projeto de vida, outros transformam a decisão num dilema. Uns porque ficam em cima do muro, outros porque não enfrentam o problema de frente e há ainda aqueles que têm medo da responsabilidade e da concorrência que acreditam que o filho pode trazer.

    A reprodução humana passou por três etapas distintas. Nos primeiros tempos, os filhos simplesmente vinham em conseqüência do casamento e eram aceitos. Como bons cristãos, os casais aceitavam de bom grado quantos filhos Deus “mandava”. As famílias eram imensas, pois a mulher só parava de engravidar e parir quando a natureza encerrava seu período fértil. Era mãe em tempo integral, sem dúvidas ou questionamentos.

    Nos anos 60, o advento da pílula anticoncepcional mudou radicalmente esse cenário. Esse momento foi um divisor de águas na vida dos casais, em particular das mulheres, que adquiriram o direito de decidir a respeito da maternidade e da sua própria vida. Filhos deixaram de ser conseqüência e passar a ser frutos da opção. Sexo se tornou um instrumento de prazer, sem o risco de gravidez. Em condições de decidir quando e quantos filhos teriam, se tivessem, as mulheres começaram a estudar mais, se tornando mais presentes e atuantes no mercado de trabalho.

    Como todo bônus tem um ônus, os problemas causados pela liberação sexual, o adiamento da gravidez em prol de projetos profissionais e pessoais e o estresse da vida moderna provocaram um aumento da incidência de infertilidade – 20% dos casais no mundo inteiro. Em 1978,, quando nasceu o primeiro bebê de proveta, a reprodução assistida - ícone da terceira fase - surgiu como solução para os casais inférteis.

    De Louise Brown até os dias de hoje, muito aconteceu. Considero-me um privilegiado, pois vivenciei as três fases, com a oportunidade de participar ativamente da terceira, ajudando muitos casais a realizarem o seu sonho de ter filhos. Certamente, outros avanços virão e eu continuarei insistindo na importância da participação do casal nesse maravilhoso projeto de ser pai e mãe.

     

     

     
       
     
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